
“A Metamorfose dos Pássaros” (2020), Catarina Vasconcelos
No livro As Ondas, Virginia Woolf transforma o pensamento-em-continuo num relicário dessacralizado pelas ausências. Amigos compartilham suas memórias, por milhas inventadas, a partir da morte de Percival. Trata-se, portanto, de uma eternidade romântica que guia todas as personagens através dos anos.
Veio-me à mente Woolf enquanto assistia ao longa de estreia da diretora portuguesa Catarina Vasconcelos, A Metamorfose dos Pássaros, no qual o documento ainda se recorda da imagem letrada. Assim como a escritora modernista, as associações e metáforas de Vasconcelos e sua família guiam um filme em natureza-morta. A memória é uma paisagem de movimento imaginado. Documentar-se por intermédio dos detalhes, das mãos que já se tingem às rugas (ecoando as mãos catadoras de Agnès Varda), faz da metamorfose um exercício singular sobre o luto e o cinema. Talvez porque aquilo que é externo à película — o que decompõe fora do quadro numa cesta de café-da-manhã, ou no tronco de uma árvore –, ainda seja passagem de uma vida.

“Un Film Dramatique” (2019), Eric Baudelaire
Discutir a(s) identidade(s) — do ser humano e de ser o outro, ou ainda do ser-cinema — a partir do olhar da infância, foi a maneira a qual o cineasta Eric Baudelaire encontrou para desafiar os dispositivos (esses do controle, do pensamento foucaultiano).
Baudelaire, em um distanciamento quase pedagógico, por vezes lembrando o documentarista francês Nicolas Philibert, escolhe como geografia de seu filme uma escola de Saint Denis, região periférica de Paris, onde se concentra um considerável número de imigrantes e de cidadãos de baixa renda. São apenas 11km que separam Saint Denis da metrópole parisiense, mas é curioso como os próprios estudantes identificam o centro da cidade como uma realidade idílica e disforme, um espaço inacessível, seja pelo seu alto custo de vida, pela diferença de indumentárias, ou pela diversidade de comportamentos. Reconhecem, no entanto, que suas raças e etnias são vítimas de preconceitos, mesmo em sua comunidade suburbana — afirmar a nacionalidade francesa não rompe com os rótulos de suas ancestralidades.
O diálogo parte sempre de um interesse mútuo; os alunos realmente querem entender seus lugares enquanto cidadãos no mundo. Logo, ao fornecer câmeras às suas personagens, permitindo a captação de seu cotidiano, Um Filme Dramático ainda se descobre um incitante exercício sobre locais de pertencimento e democratismo. O próprio aparato cinematográfico é questionado: figura randômica no lar dos estudantes, a câmera é lida como objeto descompassado, ou melhor, de dessincronização. Assim, quando a imagem não é mais importante quanto ao que deve ser dito, quando a rotina não pode ser paralisada para a encenação, sugerem que o “som” está em constante processo de desaparecimento (aqui, podemos aludir à palavra, a um idioma, ou a um discurso silenciado por políticas segregacionistas).
“Noite Perpétua” (2020), Pedro Peralta
Em uma fala presente em sua famosa série televisiva Ways of Seeing (1972), o escritor, artista e crítico de arte John Berger compartilha com o espectador que as principais características de uma pintura são a sua inércia e o seu silêncio. Os quadros são essencialmente silenciosos e, quando essa barreira é rompida, seja numa inserção fílmica e sonora, ou no vazamento externo de uma música no cubo branco da exposição, seus sentidos são modificados.
Em Noite Perpétua, o cineasta Pedro Peralta trabalha com uma dialética parecida: seu filme é construído à luz de um quadro barroco, e seu movimento é muito mais da câmera, fluido, em relação à transição dos corpos em cena. O silêncio, contudo, é praticamente religioso.
Por ser um filme sobre uma despedida, baseando-se em um acontecimento verídico durante o regime franquista, Peralta dá protagonismo à uma mãe, representando tantas outras em abandonos e represálias, e presa para sempre em um retrato de guerra.



